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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Indisciplina na sala de aula: desafios da escola e da família em busca de soluções

(IN) DISCIPLINA NA SALA DE AULA: DESAFIO DA ESCOLA E FAMÍLIA EM BUSCA DE SOLUÇÕES

Tiyoka Izabel Mizuhira Kanazawa[1]



RESUMO

As questões de indisciplina na sala de aula, na escola, consistem hoje, em um dos desafios de enfrentamento dos educadores, demonstrada pela ausência de limites, sentido ao estudo e respeito às regras sociais por parte dos alunos. Esse artigo busca refletir sobre as questões de indisciplina, envolver todos os atores da educação escolar: alunos, professores, famílias, gestores, a identificar alguns fatores que desencadeiam a (in) disciplina e investir em ação em busca de solução para este tipo de atitude. Nesse sentido, atualizar e dinamizar as metodologias de trabalho pedagógico docente, ter autoridade sem ser autoritário, adequar as atividades às novas formas de aprender dos educandos. A realidade, atual, que pauta nas escolas é diferente das de décadas anteriores, portanto, gestores, orientadores, coordenadores devem dispor de estratégias para que as questões de indisciplina sejam minimizadas, e assim melhorar o aproveitamento dos alunos e a relação interpessoal, somente com trabalho coletivo e compartilhado é possível superar os problemas de indisciplina.
Palavras-chave: Indisciplina; contexto escolar; Prática Pedagógica.


ABSTRACT

(IN) DISCIPLINE IN THE CLASSROOM: THE CHALLENGE OF SCHOOL AND FAMILY IN SEARCH OF SOLUTIONS

 The issues of indiscipline in the classroom, school, consisting today in one of the challenges facing educators, demonstrated by the absence of limits, meaning to study and respect the social rules by students. This essay reflects on the issues of discipline, involve all stakeholders in school education: students, teachers, families, managers, to identify some factors that trigger the (in) discipline and investing in action to find solution for this kind of attitude. In this sense, update and streamline the working methods teaching faculty, have authority without being authoritarian, tailor activities to new ways of learning of students. The reality, now that staff in schools is different from previous decades, therefore, managers, supervisors, coordinators must have strategies for issues of discipline are minimized, and thereby improve student achievement and interpersonal relationships, work only with collective and shared it is possible to overcome the problems of indiscipline.
 Keywords: Indiscipline; school context; Pedagogical Practice.




I- INTRODUÇÃO

            Em dias atuais os conflitos escolares se apresentam de forma variada com características diferentes de décadas anteriores. Os alunos têm acesso às informações por vários canais e veículos de comunicações, e a educação familiar também mudou, hoje, a maioria dos pais trabalha, nem sempre tem tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos, estes ficam aos cuidados de terceiros ou sozinhos em casa, tendo como “babás” a TV, expostos às condições nada favoráveis a formação da personalidade e interação social. Como enfatiza Vasconcellos:

“[...] muitas famílias desestruturadas, desorientadas, com hierarquia de valores invertia em relação à escola, transferindo responsabilidades suas para a escola [...] a família não está cumprindo sua tarefa de fazer a iniciação civilizatória: estabelecer limites, desenvolver hábitos básicos (1995, p. 22).”

            Boa parte dos educandos que chegam às escolas, às salas de aulas, experimenta colocar em prática todo o tipo de informação, angustia e revolta, entre outras situações emocionais e orgânicas. E o professor nem sempre está preparado para tal situação, bem como o coordenador pedagógico para auxiliá-los, não percebem que o trabalho da escola tem uma dimensão mais abrangente do que simplesmente sistematizar conteúdos convencionados.

“O trabalho da escola tem uma repercussão muito maior também: não se trata simplesmente de transmitir determinados conteúdos socialmente acumulados pela humanidade: trata-se, além disso, de inserir o sujeito no processo civilizatório, bem como na sua necessária transformação tendo em vista o bem comum (VASCONCELLOS,1995, p. 33).”

            E, normalmente o que se observa na prática escolar, conflitos gerados por: in-disciplina, agressão, metodologia inadequada, abuso de poder, na sala de aula, e ações improvisadas, imediatistas, muitas vezes atitudes de repressão e/ ou exclusão, comprometendo um resultado positivo, duradouro, deixando de oportunizar aos alunos, criarem autonomia e responsabilidade pelos próprios atos.  E, quando as famílias são contatadas, normalmente dizem não saber o que fazer, ou tentam esconder a verdadeira personalidade da criança no seu dia-a-dia.
            Portanto este trabalho tem por objetivo, não só para a conclusão de curso – TCC, pré-requisito do curso de Pós-Graduação em Coordenação Pedagógica, mas refletir e buscar alternativas para o enfrentamento de grande parte das variantes que acarretam a indisciplina, aqui conceituada como: transgressão ao direito do outro, incompreensão as normas da escola e regras de convívio, falta de limites, agressividade. Identificar as causas da indisciplina escolar, na relação professor e aluno, na metodologia, bem como suas características fora da escola, como problemas sociais, conflitos familiares e buscar alternativa, como sugestão para minimizar situações de conflitos, que compromete, em grande parte o currículo escolar, nos anos iniciais, 1º ao 5º anos, do ensino fundamental da Escola Esperança Dourado[2], localizado na Rua Liberdade s/nº, bairro Santana, no município de Pimenta Bueno, estado de Rondônia, através de pesquisa qualitativa exploratória utilizando-se de teorias correlatas ao tema, entrevistas in loco, para coleta de dados de forma empírica qualitativa, sob metodologia da pesquisa-ação.
            Enfim, este problema não é um ato isolado, está afligindo a maioria das escolas brasileiras, o desafio consiste em refletir o porquê da in-disciplina na sala de aula e buscar ações que contribuam com a formação do educando, refletir sobre: O que desencadeia a in-disciplina em sala de aula? Quais ações podem ser executadas para minimizar as questões da in-disciplina na sala de aula, nos anos iniciais do ensino fundamental? Em busca de alternativas que minimizem as questões das indisciplinas na escola, principalmente, na sala de aula.
            Este trabalho apresenta, no primeiro momento revisão bibliográfica sobre o tema proposto.  No seguinte, abordam os resultados da investigação-ação sobre indisciplina, na escola principalmente, na sala de aula, fatores que desencadeiam tal atitude e alternativas de mudança a minimizar questões de disciplina, finalizando com as considerações acerca dos resultados da pesquisa. Sem, contudo ter a pretensão de esgotar o assunto, mas contribuir para abertura de novos debates sobre o tema.


II- (IN) DISCIPLINA X DISCIPLINA

            As questões de conflitos interpessoais que ocorrem na maioria das escolas brasileiras, estudos e pesquisas demonstram a existências de inúmeras variantes para tal atitude. Que não difere no âmbito da Escola Esperança Dourado, mas o fator que gera maior preocupação é a crescente incidência de indisciplina que vem comprometendo a aprendizagem dos alunos; coordenadores, professores e alguns pais se questionam, muitas vezes sobre o que fazer para minimizar esse tipo de atitude. O desafio está em refletir e encontrar alternativas, ciente de que não existe uma receita pronta, para uma realidade concreta de interação entre seres humanos, que segundo Tiba:

A indisciplina pode ser conceituada como falta de limites, um desrespeito ao direito do outro, incompreensão das regras de convívio e falta de solidariedade. Ela existe quando a postura do aluno impede que a escola e que o currículo cumpram os seus objetivos. Portanto, “assim como a água corre morro abaixo e o fogo morro acima, o comportamento evasivo, a indisciplina, o desrespeito aos professores e a falta de ética crescem com a ausência de limites adequados” (1998, p.120).

            Essa problemática, segundo TIBA (1996) é uma constante em sala de aula prejudicando os estudos e principalmente os resultados da aprendizagem dos alunos. A falta de informação e conhecimento do professor faz com que sua interação com os alunos fique prejudicada, sobre o ponto de vista da adequação das metodologias, limites, o “[...] professor deve ter muita criatividade para tornar sua aula apetitosa. Os temperos fundamentais são: alegria, bom humor, respeito humano e disciplina (p.122)”. A falta desse pré-requisito no professor, normalmente é um dos fatores que desencadeiam a indisciplina em sala de aula.
            Nessa perspectiva, o professor deve ter um papel ativo, sem ser autoritário, despertar no aluno sentido de segurança, respeito, com coerência nas ações. Ter autoridade sem ser autoritário, demonstrando carinho e amizade aos educandos, para que este desenvolva o respeito de reciprocidade. Todavia, sabe-se que não é fácil a prática desta postura, mas necessária a organização e disciplina na sala de aula. Tiba ressalta que:

 É essencial à educação saber estabelecer limites e valorizar a disciplina. E para isso é necessária a presença de uma autoridade saudável. O segredo que difere autoritarismo do comportamento de autoridade adotado para que a outra pessoa (no caso, filhos ou alunos) torne-se mais educada ou disciplinada está no respeito à auto-estima (1996. p.18).

Portanto, as atitudes dos educadores, na relação interpessoal com aluno e/ ou filho, está na forma de se trabalhar, no sentido de reverter o comportamento de indisciplina e relacionais, na interação educando/ educador, em busca da liberdade. Ele sugere que deve haver um trabalho coletivo, planejamento dialogado, estabelecendo metas em comum ao fortalecimento da escola, pois:

A maior força do professor, ao representar a instituição escolar, está em seu desempenho na sala de aula. Portanto, ele não deve simplesmente fazer o que bem entender, sobretudo perante as indisciplinas dos alunos. Numa escola em que cada professor atua como bem entende, haverá, com toda a certeza, discórdias dentro do corpo docente e os alunos saberão aproveitar-se dessas desavenças, jogando um professor contra outro. Por isso é importante que os professores adotem um padrão básico de atitudes perante as indisciplinas mais comuns, como se todos vestissem o mesmo uniforme comportamental. Esse uniforme protege a individualidade do professor. Quando um aluno ultrapassa os limites, não está simplesmente desrespeitando um professor em particular, mas as normas da escola (1996. p. 166-117).

            Nesta perspectiva, segundo, VASCONCELLOS (1995) a indisciplina na sala de aula se deve a fatores como: conhecimento do professor, material adequado, a falta de clareza de objetivos, concepção idealista, muitas ideias bonitas, mas que não sabem colocar em prática e, para o enfrentamento da problemática, segundo ele deve haver a interação de três dimensões básicas:

 [...] O desafio, pois, é construir uma teoria que efetivamente possa ajudar a enfrentar o problema. Termos um movimento geral da reflexão sobre: análise da realidade, projeção das finalidades e formas de mediação. Para isso é fundamental que o projeto de enfrentamento do problema seja construído e assumido pelo coletivo escolar. [...] antes de mais nada, para poder enfrentar o problema da disciplina, é necessário compreende-lo, ou seja, entender o que está acontecendo hoje com a disciplina na sala de aula, na escola (e na sociedade). Certamente, umas séries de fatores influenciam, mas deve-se analisar como ocorre concretamente. No processo de análise é que irão emergindo os determinantes fundamentais do processo em estudo (1995, p. 17).

            Neste aspecto, as variantes que envolvem situações de (in) disciplina na escola, mais precisamente na sala de aula, estão em refletir sobre as complexas relações de valores, ética, conhecimento, mudança do modelo social, econômico e institucional.  Bem como, a valorização do professor sua formação passiva e descrença nas próprias atitudes e conhecimentos diante da problemática que envolve a prática pedagógica. E a falta de sentido da educação e formação escolar, nos dias atuais, com maior número de diplomados e desempregados. Faz com que a educação escolar perca o sentido, não se justifica mais para a dicotomia da ascensão social, melhor emprego. Que segundo Vasconcellos:

A nosso ver, a crise da disciplina escolar hoje está associada justamente à crise de objetivos e de limites que estamos vivenciando. [...] A educação, para ser autêntica, precisa de direção, de orientação. Contudo, ao mesmo tempo, precisa de liberdade e de espontaneidade. O desafio é esse: quando estamos sendo 'porto seguro', temos de questionar: "Até que ponto não deveríamos ser 'mar aberto', incentivar a participação do grupo?". Quando estamos sendo "mar aberto", precisamos manter a tensão: "Até que ponto não teríamos de ser "porto seguro", amarrar, sistematizar, intervir?” “. Manter essa tensão interna é a arte do professor para enfrentar a questão da disciplina. [...] Ser dialético não é ficar em cima do muro, nem é dar uma "dura" e dar uma "alisada". Manter sempre essa tensão é o grande desafio de hoje, para que se possa administrar a disciplina na sala de aula (2011. p.231-247).
           
            E mais, a mudança somente ocorrerá a partir da reflexão do professor sobre sua prática na sala de aula. Vasconcellos propõe ainda, uma série de sugestões que podem orientar na mudança e transformação do relacionamento professor e aluno, que será abordado no capítulo das alternativas para minimizar as questões de indisciplina na sala de aula. Que também, são asseguradas pela Normativa que trata das questões do Plano de Desenvolvimento da Educação Básica - PDE, visando à qualidade do ensino e aprendizagem. Esta normativa foi aprovada devido à preocupação dos atores do sistema da educação básica, com o baixo índice no IDEB, das escolas públicas. A necessidade de fortalecer a autonomia de gestão das escolas por meio de um diagnóstico efetivo de seus problemas e respectivas causas, suas dificuldades, suas potencialidades, bem como a definição de um plano de gestão para melhoria dos resultados, com foco na aprendizagem dos alunos. Conforme o Ministério da Educação Básica, no caput desta Lei:

 “Art. 3º São etapas de implementação do Plano:
I – preparação: a escola inicia o processo de auto-organização com a designação do coordenador do Plano e criação do Grupo de Sistematização;
II – auto-avaliação: momento em que a escola analisa:
a) seu nível de eficiência e produtividade, tais como, por exemplo, taxas de evasão, abandono escolar, desempenho, dentre outras, conforme instruções do Ministério da Educação ou do FNDE;
b) como a própria escola se situa em relação aos fatores que ela controla e que podem contribuir para a melhoria da qualidade do ensino;
c) quais os principais problemas da escola e quais são suas causas; e
d) quais as potencialidades da escola para superar os problemas identificados.
III – elaboração do plano estratégico: momento em que a escola:
a) discute sua visão, sua missão, seus valores e os objetivos estratégicos a serem atingidos;
b) define as metas a serem alcançadas e as estratégias a serem adotadas em um período de dois a três anos; e
c) define o plano de ação, com o detalhamento necessário para explicitar as condutas a serem adotadas para alcançar as metas definidas;
IV – execução: adoção prática das condutas definidas no plano estratégico;
V – “monitoramento: acompanhamento e avaliação contínua da execução do Plano (Portaria Normativa Nº 27, de 21 de Junho de 2007).”

Estes critérios do Plano de Desenvolvimento da Educação Básica – PDE, para a melhoria na qualidade da educação, são propostas recentes do Ministério da Educação e Cultura, que estão sendo colocados em prática em algumas unidades escolares das redes públicas de educação, no sentido de minimizar questões de conflitos e equalização da educação. Neste sentido, a proposta à melhoria as questões de indisciplina, também está implícita nos critérios e nas ações proposta nesta normativa.
            Todavia, TIBA (1996) ressalta que para um comportamento de disciplina é necessário, antes de tudo ter limites, que se aprende no seio da família, sobretudo na primeira infância. A gratificação de educar os filhos, o posicionamento nas delicadas situações de conflitos, são atitudes que oportunizam aos filhos a conquista de limites, que se estende nas relações interpessoais, com a postura dos educadores: escola, professor e família. Nessa difícil tarefa de disciplinar e ensinar limites, mas sem, contudo tolher a liberdade. Segundo ele:

[...] As crianças aprendem a comportar-se em sociedade ao conviver com outras pessoas, principalmente com os próprios pais. [...] A maioria dos comportamentos infantis é aprendida por meio da imitação, da experimentação e da invenção. “Portanto, cada vez que os pais aceitam uma contrariedade, um desrespeito, uma quebra de limites está fazendo com que seus filhos não compreendam e rompam o limite natural para seu comportamento em família e em sociedade (p.15-16).

Mas normalmente, a família tolera muitas atitudes inadequadas as convenções sociais, principalmente, na criança na faixa etária do zero aos doze anos. E ao chegarem à escola colocam em prática de forma experimental, causando conflitos disciplinares. Segundo VASCONCELLOS (1995) nesta fase escolar inicial:

[...] o problema parece menor, mas isto pode ser, de fato, só aparência, pois, por um lado, aí justamente por estar gestado, só não tendo manifestado ainda em função da pouca idade; por outro lado, paulatinamente, temos ouvido cada vez mais queixas também destes professores. Se há alguns anos o grande problema de disciplina era, por exemplo, da 5ª série em diante, atualmente já existe reclamação de professores de 1ª ou 2ª série, sem contar alguns casos alarmantes de reclamação de professores de pré-escolar [...] (p. 21).

As queixas de professores sobre indisciplina em alunos desde a pré-escola, já se tornou uma constante nas instituições escolares. Pesquisas demonstram que a sociedade vem mudando, assim como a forma de interação, estruturação e o poder aquisitivo das famílias. Uma das variantes no caso de indisciplina está pautada, principalmente, na desestruturação familiar, inversão de valores, e necessidade dos pais trabalharem para a manutenção da família, faz com que transfira suas responsabilidades, deixando de cumprir o seu papel na construção de conhecimentos, valor afetivo, limites, respeito às regras sociais na educação dos filhos, à escola.
E, a escola por sua vez, ao iniciar o ano letivo depara com os problemas de indisciplina em sala de aula e constante queixas de professores que apontam para a qualidade da aprendizagem. Todavia, como expresso nos critérios da normativa do PDE, a escola, o professor deve ter, no seu PPP, o planejamento norteador, proposta de ações onde os alunos devem ser auxiliados na construção de conhecimentos e inserção no processo civilizatório para poder usufruir a sua condição de sujeito social, de forma cidadã. No entanto como diz Vasconcellos:
 [...] Encontramos professores que estão na sala de aula, mas numa ilusória situação de transição, ‘logo vou sair dessa’. Não se comprometem, não se envolvem, justificam seu fracasso em cima da responsabilidade de outros. Ou seja, o professor se recusa a fazer uma autocrítica; acha que o problema está no aluno, na família, na escola, no sistema, etc. Fala do aluno como um ser já deformado, apático, dispersivo, sem controle das emoções, etc. [...] Há a necessidade de desalienar a relação pedagógica: entender que estes alunos são problema seu. O professor tem que ser sujeito da história pedagógica de sua classe e de sua escola; não pode ficar sonhando com alunos ideais. Primeiro aceitar o que tem depois tentar mudar (1995, p. 67).

            Portanto, cabe aos atores envolvidos na educação: professores, pais, escola, acatar, executar normas da instituição e prover meios para deixar claro estas regras, os direitos, os deveres e responsabilidade do aluno e, monitorar o seu cumprimento para que não perca o objetivo do bom relacionamento social, de respeito e qualidade da aprendizagem, em detrimento da indisciplina na sala de aula.




III- NO CONTEXTO ESCOLAR: GESTÃO, PPP E PRÁTICA PEDAGÓGICA

            Estudos e literaturas sobre gestão escolar sugerem que a elaboração do PPP e execução na escola se orientem sobre a perspectiva da gestão democrática, com a participação de todos os seguimentos envolvidos na educação. Nesta perspectiva foram elaborados questionários para entrevista in loco, coleta de dados e posterior análise empírica qualitativa. A pesquisa foi realizada com funcionário, professores e pais de alunos, da Escola Esperança Dourado[3] localizado na Rua Liberdade s/nº, bairro Santana, no município de Pimenta Bueno, estado de Rondônia, neste ano letivo de 2011, com o objetivo de identificar a realidade operacional da escola, bem como evidenciar alguns fatores que concorrem para a indisciplina na sala de aula.
            Os dados da pesquisa, através de entrevista com professores, coordenadores, pais de alunos, e outros funcionários da escola, indicam que não houve eleição para direção por falta de candidatos, a direção foi ocupada por dois professores indicados pela Secretaria de Educação, deixando de exercer um dos critérios da gestão democrática. Mas, seja de que forma ocorreu à ocupação da função de gestor, deve-se levar em conta que o PPP – Projeto Político Pedagógico trata-se de um projeto norteador das ações de uma instituição escolar. Na análise documental do livro de ocorrência da escola, foram constatados, inúmeros casos de agressão física e verbal entre alunos, afronta aos professores e funcionários, infrequencia dos pais e responsáveis do aluno, nas reuniões e quando solicitado sua presença para tomada de providências, diante de conflitos. Todavia, quando da análise do PPP desta escola, não foi encontrado um plano de ação para minimizar as ocorrências de indisciplina na sala de aula, as menções referentes ao corpo discente, somente apontam para a intervenção em caso de problemas e/ ou déficit de aprendizagem, pontua sobre o nível e modalidade da Educação Básica ofertada.
            A pesquisa aponta ainda, que as decisões elencadas no PPP, foram propostas de forma unilateral, sem um debate prévio entre os atores envolvidos na educação desta escola. Deixou-se de abrir espaço para o dialogo com a comunidade escolar, professores, técnico pedagógico, pais, sobre o perfil, características do corpo discente, ao planejamento das ações, no sentido de auxiliar na construção do conhecimento, desenvolvimento da personalidade, bem como intervenção em caso de indisciplina na sala de aula, dos alunos, pois, segundo entrevista com professores, pais de alunos e funcionários, a maioria relatou desconhecer a existência deste projeto, outros disseram que tinha ouvido falar, mas nunca teve oportunidade de contato, a minoria respondeu, ter participado da reunião de elaboração do PPP. Nesse sentido esta escola precisa se orientar melhor para as questões da participação dos atores envolvidos na educação e sobre estas perspectivas, Vasconcelos sugere que o PPP:      
“ [...] Pode ser entendido como a sistematização, nunca definitiva, de um processo de planejamento participativo, que se aperfeiçoa e se objetiva na caminhada, que define claramente o tipo de ação educativa que se quer realizar, a partir de um posicionamento quanto a sua intencionalidade e de leitura da realidade. Trata-se de um importante caminho para a construção da identidade da instituição. É um instrumento teórico-metodológico para a transformação da realidade. Enquanto processo, implica a expressão das opções da instituição, do conhecimento e julgamento da realidade, bem como das propostas de ação para concretizar o que se propõe a partir do que vem sendo; e vai além: supõe a colaboração em prática daquilo que foi projetado, acompanhado da análise dos resultados. (2004, p.17-18).

            Enfim, diante desta análise, observa-se que os critérios para a efetivação da gestão democrática, bem como, a construção do Projeto Político Pedagógico - PPP, não contou com todos os atores envolvidos na educação, desta instituição e, ações para minimizar as questões das indisciplinas em sala de aula, não foram elencadas nas propostas deste projeto. Portanto, a seguir será analisada como ocorre na prática pedagógica, em sala de aula, as variantes das questões de indisciplinas.


3.1- Prática Pedagógica: Indisciplina em Sala e Aula
           
            Segundo entrevista na escola, professores e coordenador pedagógico, disseram que tem no seu quadro de alunos matriculados, quase 800 (oitocentos), dentre eles uma média de 10% (dez por cento) oriundos da zona rural, no período vespertino, chegam à escola via transporte escolar, e no caso da necessitar de aulas reforço no contra turno, ficam prejudicados, pois o transporte escolar não é oferecido no contra turno, portanto não podem ser ajudados nas dificuldades que apresentam,  por este motivo, na maioria dos casos, eles fazem mais de um ano letivos por ano de escolaridade. Segundo a maioria dos Professores, relatam:
“_ Ficamos preocupados ao perceber que alguns alunos oriundos da zona rural estão com lacunas de alfabetização, problemas de aprendizagens, precisam de auxílio, aula de reforço, mas não podem comparecer a estas aulas, no contra turno, por falta de oferta de transporte escolar. Estas dificuldades fazem com que não seja possível acompanhar as atividades com a turma e, normalmente se põem a causar problemas de indisciplina, atrapalhando a aula e comprometendo a qualidade da aprendizagem da turma toda. (professores. 06/2011)”

Desta forma, a maioria das ocorrências registradas na escola demonstra em seu teor, que os alunos não veem significados nos estudos, por isso a falta de interesse, outras vezes a dificuldade e lacunas de aprendizagem, torna-se uma das causas de indisciplina. E, a incidência das ocorrências é mais frequente com alunos oriundos da zona rural. Alguns professores ainda, se queixam da interrupção das aulas planejadas para atender projetos propostos pela secretaria de educação, que são comunicados a eles, perto do cronograma da apresentação. Esta interrupção torna-se outro fator que desencadeia a indisciplina, pois, estas propostas raramente são debatidas, analisadas com a equipe técnica pedagógica, professores, alunos, e comunidade escolar, sobre a viabilidade, a contribuição no ensino e aprendizagem. Por esta razão, na maioria das vezes o aluno percebe como uma ação sem objetivo, um laser no meio do desenvolvimento das aulas e se põe irreverentes, perdem o interesse nos conteúdos planejados para as aulas criando situação de conflito, agressividade, necessitando constantemente intervenção e mediação da coordenação pedagógica para minimizar a situação. Segundo alguns alunos entrevistados:
“A falta de disciplina na sala de aula ocorre porque a aula é “chata”, a gente não entende a matéria e a professora não explica de novo, às vezes muda de atividade, começa a dar tarefas que não é da nossa turma. Ela fala que é projeto da escola e, só alguns alunos podem participar: cantar; do teatro e outras coisas, para apresentar para o povo lá fora, ai começa a bagunça, porque não podemos participar só os escolhidos pela escola (alunos. 06/2011).”

O que se observa são alunos sentindo-se emocionalmente, excluídos de algumas atividades, e esse sentimento acarretar situações de indisciplina e revolta entre alguns alunos. Outros ainda, dizem: “para que estudar, se meus pais nem olham o meu caderno, nem quer saber o que eu estou fazendo, só pergunta das notas (06/2011)”. As evidências apontam para a falta de interesse e acompanhamento da família, nas atividades escolares dos filhos, desencadeando sentimento de contra valor para com os estudos e a escola, uma das questões apontadas em caso de indisciplina em sala de aula.
            Outras dificuldades apresentadas pelos professores, enquanto aprendizagens e comportamento dos alunos foram: leitura, interpretação, lacuna de alfabetização, falta de limites, e acompanhamento da família. No entanto, a oferta de ação para minimizar estas dificuldades, segundo dados da entrevista, foi somente às aulas de reforço, com oferta irregular, pois, quando a turma tem um professor contrato de 25 horas semanais, as aulas de reforço ficam para o professor com contrato 40 horas semanais, no contra turno, ou 04 (quatro) horas extras ao professor (contrato 25 horas) da turma, para execução destas aulas. Outro fator é o número excessivo de alunos por turma (em média - 25 a 38 alunos), e a constante rotatividade de professores, questões que influem na qualidade do resultado da aprendizagem e disciplina em sala de aula. Professores relatam sobre a falta de espaço físico para desenvolver as aulas de reforço, que estão sendo ofertados na biblioteca da escola. Este tipo de perfil escolar vai de encontro com o relatório da UNESCO, quando pontua sobre a falta de pré-requisitos das escolas para efetivação da Gestão Democrática e educação para o exercício da cidadania.
            Nesse aspecto, as análises dos relatórios do desenvolvimento da prática pedagógica, de professores e coordenador pedagógico, apontam para o problema de indisciplina na sala de aula, a violência e infrequência, estar vinculado à falta de subsídio de especialistas para efetivar a inclusão, metodologia que não atende as expectativas da turma, mediações realizadas sem um planejamento prévio, as ocorrências tratadas com ações imediatistas. E ainda, a inadequação do espaço físico e equipamentos à demanda da proposta pedagógica, a falta de valorização do magistério, recurso humano específico para inclusão (especialistas), número de professores insuficientes (rotatividade), vem reforçar o relatório da UNESCO. Todavia, Lima & Santos (2007), enfatiza sobre o papel do coordenador pedagógico é de suma importância, na prática escolar frente à formação continuada dos professores, mediação e subsídios que atenuem os conflitos de operacionalização pedagógica didática e ao estabelecimento de um clima organizacional propício ao desenvolvimento de um trabalho de qualidade. As autoras ainda reforçam, ‘que a prática pedagógica se constrói pela contribuição de todos os atores sociais, cujo sujeito facilitador, pode ser materializado, dentre outros, na figura do coordenador pedagógico’, sendo suas principais atribuições:
[...] a) acompanhar o professor em suas atividades de planejamento, docência e avaliação;
b) fornecer subsídios que permitam aos professores atualizarem-se e aperfeiçoarem- se constantemente em relação ao exercício profissional;
c) promover reuniões, discussões e debates com a população escolar e a comunidade no sentido de melhorar sempre mais o processo educativo;
d) estimular os professores a desenvolverem com entusiasmo suas atividades, procurando auxiliá-los na prevenção e na solução dos problemas que aparecem (apud Piletti (1998, p. 125)

            Enfim, considera-se que há grande possibilidade de estar idealizando a teoria à prática pedagógica e “ajustar” a realidade escolar, este é um dos pontos principais para o avanço e minimizar as questões de indisciplina em sala de aula. E, no caso do PPP, ser mais realista e considerar este, um projeto de todos os seguimentos da escola onde haja a oportunidade real de participação de todos os atores envolvidos na educação, não só mais um projeto de “gaveta” ao atendimento burocrático, e a escola ser “vista, percebida e respeitada”, como um lugar de troca de experiência de construção de conhecimento, sem preconceitos ou maquiagem e, que discutam ações que venham a minimizar as questões de disciplina. Outra variante apontada pelos professores e alunos como gerador de conflito foi à avaliação, que será abordado a seguir.


3.1.1- Prática Pedagógica, Avaliação, inter-relação pessoal e profissional

            Em uma avaliação que se quer contemplar a construção do educando, necessariamente deve iniciar com a proposta de um currículo compartilhado, subentende-se que os membros da escola em conjunto, sobre dialogo, debates, análise da realidade escolar, definem e ajustam suas ações com finalidades e objetivos elencados pelos atores da educação, negociam os critérios de qualidade, de controle e fazem os ajustes necessários para a sistematização num processo contínuo. E também, reflete sobre o currículo oculto, as ações que são executadas, quase sempre, de forma implícita, sob o ponto de vista das ideologias, valores, ética de quem detém o poder, que nem sempre, são ações executadas de forma consciente pelos educadores na relação de interação com o aluno. Contudo a pesquisa nesta escola demonstra que a prática de elaboração de um currículo compartilhado, ainda é um sonho a se realizar, segundo informação, os professores recebem a proposta curricular pré-estabelecidas para execução.
Por esta razão, a tônica magistral está no resultado quantitativo, os conceitos de avaliação não estão claras, para a maioria dos gestores e professores; sequer sabem o que fazer com o resultado. Por essa razão, muitos alunos ao perceberem com dificuldades na aprendizagem e conceito aquém da média necessária para aprovação, começam a dizer: “para que eu vou estudar, vou reprovar mesmo, não consigo entender nada”, e assim, aponta para atitudes de indisciplina, por falta de perspectiva positiva. Todavia, existe a tendência de mudança nesse processo, mesmo que de forma lenta, em função das propostas e programas do sistema educacional nacional, na busca da qualidade e eficácia e oferta de capacitações continuadas aos docentes e gestores. A pesquisa demonstra ainda, existência de escolas, engajadas nessa ação, sob a óptica do desenvolvimento da capacidade de aprender a aprender, onde:
[...] o ensino é orientado segundo as necessidades dos alunos [...] tornar o aluno ativo [...] há padrão de desempenho adequado, claro e explícito, visando a uma formação equilibrada dos alunos. Mas eles não são impostos de forma rígida: são negociados, reconhecidos e aceitos por todos; [...] pratica-se avaliação diagnóstica e formativa, essencialmente utilizada para guiar a instrução e para regular a aprendizagem, [...] (Apud Thurtler. 1998. P.180-81).

À melhoria da aprendizagem de forma qualitativa, também é necessário dispor de instrumentais, não só a que se refere à competência do professor, mas do engajamento de todos os atores envolvidos na ação educacional, bem como recursos materiais e humanos. No entanto, a análise desta pesquisa indica que esse processo está sendo desenvolvida de forma isolada, por alguns professores que se utiliza da avaliação para adequar sua ação as necessidades de aprendizagem dos alunos e, em função dos objetivos a ser conquistado. Segundo W G. VAN VELZEN (1985):
“[...] a avaliação da escola tem como principal objetivo seu aperfeiçoamento. Logo, ela se situa não no registro da medida, mas no da ação, da regulação. Se a avaliação é apenas um meio, é preciso adaptá-la ao que se sabe agora sobre o funcionamento efetivo das escolas. Isso leva, muito logicamente, a colocar a auto-avaliação na base de uma busca da eficácia, apostando-se (M. RUNKEL et al., 1979) num conjunto de procedimentos (grifo do autor) que tornam a escola capaz de resolver seus próprios problemas:
1. o diagnóstico;
2. a coleta de dados;
3. o desenvolvimento de ações coordenadas;
4. a supervisão. (Apud Thurtler. 1998. p.178)

Entretanto nessa escola, para a maioria dos docentes, a reflexão sobre avaliação, raramente tem seu espaço no planejamento das ações pedagógicas e administrativas, principalmente, no que diz respeito à ação a ser tomada diante dos resultados, bem como das atitudes de indisciplinas na sala de aula, que prejudicam a aprendizagem. Como citado inicialmente, a avaliação, ainda não é claro, nem para os gestores, nem aos professores, portanto, o que normalmente existem são comparações de resultados.  Aplicam-se as avaliações diagnósticas, mas não valorizam seu resultado para planejar novas ações em busca de soluções aos problemas encontrados. Que segundo THURTLER (1998), a auto-avaliação, deve servir para o aprimoramento da escola e das ações. Como uma proposta, à capacidade da escola de resolver seus próprios problemas.
O que se espera dos professores e alunos é a construção de uma cultura que favoreça a melhoria na comunicação e cooperação; que privilegie o entendimento e a negociação, atingindo o consenso coletivo, no que diz respeito a normas, condutas, disciplina, currículo e avaliação. A falta de clareza sobre a avaliação e seus resultados, faz com que muitos alunos que apresentam lacunas e déficit de aprendizagem, põem-se a recusar realizar atividades, demonstrar desinteresse nos estudos e, na sua ociosidade em sala de aula, começam a praticar atitudes que não estão relacionadas aos conteúdos planejados pelo professor, comprometendo toda a aula por comportamento inadequado de indisciplina durante a aula.
THURTLER (1998) ainda enfatiza que, no modelo de avaliação existem algumas características interdependentes que orientam o ensino segundo as necessidades dos alunos para formação equilibrada, com desempenho adequado, claros e explícitos, negociado e aceito por todos, fazer o aluno ser responsável e participar, a cultura da escola compor do conhecimento socialmente compartilhado e transmitir os legados e as atualidades, numa organização de gestão que valoriza as relações entre professores, num clima de colaboração, interação, dar segurança, e prazer de desenvolver o trabalho, de estar ali, que implica também as boas relações com os pais, numa administração justa e equilibrada entre autogestão e poder central, entre a autonomia da escola e os esforços pedagógicos pela atividade escolar.
Mas, segundo professores entrevistados, normalmente, a escola é assediada para promoção de eventos, por outras instituições, inclusive pela própria secretaria de educação/setor pedagógico e gestor escolar, chegando a comprometer o planejamento do professor, pois, a comunicação destes eventos/projetos, a serem desenvolvidos junto aos alunos, estranho ao planejamento do professor, são comunicados, somente, a alguns dias da sua execução. Assim, pontua uma contradição entre o que a escola quer demonstrar e o que está realmente praticando no seu interior, as ações estão, mais, para atender “aos olhos” do sistema, dos gestores, sem, contudo um aceite e/ou consulta prévia do professor, ouvir sua voz e acatar as sugestões, de fato. E, nessa contradição de poderes, nas ações e objetivos, alguns educandos, avaliam e percebem, se posicionam para colocar em prática sua irreverência, experimentar tomar iniciativas inadequadas, afrontar as normas da escola e consequentemente prejudicar o desenvolvimento das aulas.
            Neste contexto a política social da Escola, revela que o estilo de direção-gestão na Escola Esperança Dourado, ora se apresenta de forma aberto à inovação, ora de forma puramente administrativo. Aberto as inovações quando se reuni com funcionários e professores para ouvir propostas, sugestões sobre ações a serem planejadas e executadas, bem como suas prioridades, mas no segundo momento, passa ser, mais administrativo, quando da execução das ações percebe-se, descartado as maiorias das sugestões elencadas nas reuniões, em detrimento da minoria. A escola pouco tem possibilitado, incentivado os laços formais entre professores, na medida em que não se promovem reuniões, eventos para troca de experiências, os planejamentos individualizados, tempo escassos para estudos. À coordenação, raramente, é aberta espaços para capacitação continuada na escola, normalmente os projetos são elaborados por pequeno grupo de professores sob acompanhamento da coordenação, outros, já vem pré-estabelecidos pela equipe pedagógica da secretaria de educação, como pontuado no início deste capítulo. Agravados pela constante rotatividade de professores que acabam impossibilitando a criar laços de quaisquer tipos.
Diante desses aspectos, nos dias atuais, raramente os professores, “vestem a camisa” da educação, da escola, estão desmotivados pela desvalorização do seu profissionalismo, demanda de alunos excessivos em sala de aula, inclusão sem preparo profissional, falta de adequação estrutural, organizacional, equipe multiprofissional e, tendo eles que se responsabilizar pela execução, mediação das indisciplinas, a falta de limites dos educandos, e resultado da aprendizagem de todos, na sala de aula. Na escola, as reuniões seriam um bom momento de interação, comunicação troca de experiências, prazer de estar e conviver com os seus colegas de trabalho, um momento único para a renovação da motivação, expectativas do ensino e aprendizagem. Todavia, entrevista revela que, raramente isso ocorre desta forma, quando marcada as reuniões, muitos perguntam, é obrigatório a presença? Alguns chegam com atraso, outros saem antes do horário, outros ainda, ligam se desculpando pela ausência. As reuniões, normalmente, começam com atraso, e raramente os professores tem a voz ativa, o poder sempre acaba centrado na mão de um e/ou de um grupo mínimo, por esta razão, a qualidade das reuniões não tem melhorado, bem como a participação do coletivo, menosprezado em suas colocações.
No entanto, sabe-se que todo processo de mudanças, há um período de dificuldades, adequações, resistências, entretanto senão houver o compromisso dos atores internos e externos envolvidos na educação escolar, a tendência é pouco ou quase nada mudar, principalmente nas questões de disciplina e limites, mesmo a médio e em longo prazo. Muitos programas tem se colocado em execução à melhoria da educação, mas a flexibilidade ainda é uma utopia para a prática de gestão escolar.  Na medida em que programas são desenvolvidos, depara-se com um impasse sobre a óptica de “fiscalização à distância”, onde tudo pode desde que atenda os objetivos maiores das secretarias e do sistema, onde fica a autonomia da escola, a autogestão diante da realidade em que se situa? Diante de tantas propostas excelentes que não chegam às escolas como veiculados na mídia, o professor também avalia sua atuação profissional e valorização e, se sente exausto, cansado, porém sonhador, ainda que um dia, não tão distante tudo possa não ter passado de um pesadelo, e a educação escolar volte a ser valorizado. Diante a visão de uma escola ideal, auto-gestão, autonomia para as escolas, propor e executar conforme sua realidade (a do aluno).  Segundo professores, diante dos problemas apresentados pela escola:
“Raramente, os problemas são colocados nas reuniões e debatidos algumas possíveis soluções. A escola conta com o recurso do PDE, mediante plano de ação a ser executado diante das dificuldades/problemas diagnosticados, entretanto, nem sempre o plano de ação é executado em sua integra e, carecem de acompanhamento, os resultados se devem na maioria dos casos, do esforço de professores, utilizando-se até de seus próprios recursos. Na sala de professores, a conversa, normalmente se dá sobre o tema das dificuldades enfrentadas quanto à (in) disciplina e falta de limite de alunos, restrições de recursos materiais e acompanhamento de especialistas para a inclusão dos necessitados especiais (06/2011).”

Quanto ao relacionamento em trabalho, observa-se a existência de preferências por parte dos atores envolvidos na educação escolar, nem todos agem da mesma forma e/ou se relaciona igualmente. Uns são mais passivos aos acontecimentos, outros mais ativos, tem os que são pessimistas em relação às expectativas. Mas como em qualquer instituição ou empresa, na escola também existe o profissional que sempre quer se sobressair mesmo em detrimento do trabalho do outro, causando desconforto. Enquanto relação aluno-aluno, muitos conflitos, aparece registrada no caderno de ocorrências da escola, por problemas de limites e indisciplinas, no caso de relação professor-aluno, o aluno que está sempre dificultando as aulas, são os de pior resultado, conceito, nota, pois acabam sendo rotulados pelo professor e pela escola.
Em suma, a falta da linguagem comum que pressupõe coerência, na comunicação, entendimento, para objetivação das ações em busca de mudanças, a eficácia das ações da escola, ainda é falho. Pode-se dizer que: autonomia, embasado na cultura que favoreça a comunicação e a cooperação, onde os professores sintam-se capazes e desejosos de superar todos os problemas que se apresente, de forma contínua, sempre negociando os procedimentos de avaliação no sentido da busca de mudança, e colocando-o em prática, que THURLER (1998) denomina como sendo o clima da escola, que ainda está por conquistar.


3.1.2- Possíveis Alternativas para Minimizar a Indisciplina na Sala de Aula

            Diante dos problemas apontados na pesquisa realizada na Escola Esperança Dourado, sobre as variantes que levam à indisciplina em sala de aula, foi sugerido à Direção e professores, desenvolvimento de um projeto para minimizar as incidências de indisciplina em sala de aula bem como na escola, houve algumas resistências por parte de professores. Mas, após diálogo e debates, junto à equipe da escola (2011) para adequação do planejamento e estudos das propostas de ações, o Projeto: Disciplina X Indisciplina: Relação professor, aluno, família, na escola, embasado nas orientações de GROPPA AQUINO[4] (1998), expresso a seguir, foi colocado em prática:
1- compreensão do aluno-problema como um porta-voz das relações estabelecidas em sala de aula. O aluno-problema não é necessariamente portador de um "distúrbio" individual e de véspera, mesmo porque o mesmo aluno "deficitário" com certo professor pode ser bastante produtivo com outro. Temos que admitir, a todo custo, que o suposto obstáculo que ele apresenta revela um problema comum, sempre da relação. Vamos investigá-lo, interpretando-o como um sinal dos acontecimentos de sala de aula. Escuta: eis uma prática intransferível!
2- des-idealização do perfil de aluno. Ou seja, abandonemos a imagem do aluno ideal, de como ele deveria ser quais hábitos deveria ter, e conjuguemos nosso material humano concreto, os recursos humanos disponíveis. O aluno, tal como ele é, é aquele que carece (apenas) de nós e de quem nós carecemos, em termos profissionais.
3-  fidelidade ao contrato pedagógico. É obrigatório que não abramos mão, sob hipótese alguma, do escopo de nossa ação, do objeto de nosso trabalho, que é apenas um: o conhecimento. É imprescindível que tenhamos clareza de nossa tarefa em sala de aula para que o aluno possa ter clareza também da dele. A visibilidade do aluno quanto ao seu papel é diretamente proporcional à do professor quanto ao seu. A ação do aluno é, de certa forma, espelho da ação do professor. Portanto, se há fracasso, o fracasso é de todos; e o mesmo com relação ao sucesso escolar.
4- experimentação de novas estratégias de trabalho. Sala de aula é laboratório pedagógico. Não é o aluno que não se encaixa no que nós oferecemos; somos nós que, de certa forma, não nos adequamos às suas possibilidades. Precisamos, então, reinventar os métodos, precisamos reinventar os conteúdos em certa medida, precisamos reinventar nossa relação com eles. A idéia é de que dois são os valores básicos que devem presidir nossa ação em sala de aula: a competência e o prazer. Quando podemos (ou conseguimos) exercer esse ofício extraordinário que é a docência com competência e prazer - e, por extensão, com generosidade -, isso se traduz também na maneira com que o aluno exercita o seu lugar.

            Tendo como parâmetro as quatro orientações de GROPPA AQUINO, iniciou-se a execução das ações, com perspectiva de atualização no planejamento a cada semestre dos anos letivos em exercício e posteriores, que está sendo desenvolvido na Escola Esperança Dourado, localizado na Rua Liberdade s/nº, bairro Santana, no município de Pimenta Bueno, estado de Rondônia, com resultados significativos nas questões de in-disciplina da sala de aula e na escola.
            Com a proposta pedagógica interdisciplinar, executada para minimizar as questões de indisciplinas, ações de caráter contínuo, junto aos alunos de Pré-Escolar (4 e 5 anos) e ensino fundamental anos iniciais (6 a 12 anos). Foram desenvolvidas ações como: Debate sobre direitos e deveres; diálogo sobre regras e normas sociais; participação na seção plenária da câmara legislativa; elaboração do regimento interno da sala de aula respeitando o regimento da escola; debate em plenária com a turma e auxílio de um vereador para aprovação do regimento da sala de aula; passeio no viveiro de mudas e, diálogo tira dúvidas com o técnico agrícola sobre os cuidados das plantas e sua importância para a vida; plantio de mudas e cuidados com elas, na escola. Estas ações foram desenvolvidas em parceria com: Câmara legislativa, Conselho Tutelar; participação de pais, alunos, professores e comunidade local.
Os resultados preliminares demonstraram que as ações estavam indo ao encontro das expectativas e objetivos elencados, para a melhoria no interesse e motivação aos estudos pelos alunos; diminuição de ocorrências de indisciplinas na sala de aula; respeito às regras de sala de aula, reelaboradas por eles; melhora na relação interpessoal e na preservação e conservação do meio ambiente escolar. Outras mudanças significativas que ocorreram foram: na postura dos educadores; na idealização de unir a teoria à prática pedagógica e “ajustar” a realidade escolar; no desenvolvimento da linguagem comum que pressupõe coerência, na comunicação, entendimento, objetivação das ações em busca de mudanças e, eficácia das ações na escola; na autonomia do professor, embasado na cultura favorável a comunicação e a cooperação, desejosos de superar todos os problemas e conflitos, de forma contínua, sempre negociando os procedimentos de avaliação, mediação no sentido da busca a minimizar e superar as dificuldades que se apresentem, com a colaboração da equipe pedagógica da escola. Pois, entende-se que:
[...] o problema da disciplina é tarefa de todos: sociedade, família, escola, professor e aluno. Todavia, não podemos ser ingênuos, pois, embora a 240 tarefa seja de todos, nem todos estão interessados em resolver o problema. O que fazer diante disso? Cruzar os braços e esperar que o outro faça a parte dele, para fazermos a nossa? Não. Até porque, se fizermos isso, nem teremos moral para cobrar do outro. Que atitude ter, então? Uma atitude transformadora, ou seja, começamos tentando fazer a nossa parte, somamos com os aliados da luta e vamos, ao mesmo tempo, cobrando que o outro faça a parte dele. É assim que estamos entendendo esse processo de mudança: que cada segmento assuma suas responsabilidades específicas - que são evidentemente diferentes - e exija que os outros também assumam suas respectivas, enquanto todos se comprometem simultaneamente com a mudança das estruturas que estão por trás do problema (Vasconcelos. 2011. pg. 240-241).

VASCONCELOS (2011) enfatiza que se deve resgatar no processo, o sentido e as exigências da educação, contribuir para, gradativamente, a médio e longo prazo, minimizar os problemas de indisciplinas que comprometem a qualidade da aprendizagem, na educação escolar, através de ações e reflexões, como:
1 - Resgate do Sentido
• Construir participativamente o projeto político-pedagógico da escola, resgatando o sentido do estudo, do conhecimento.
• Ganhar clareza em relação à postura do educador: dialética direção participação.
• Ter convicção daquilo que vai ser ensinado.
• Resgatar a significação dos conteúdos.
• Realizar trabalho de conscientização com as famílias.
• Explicitar o sentido das normas existentes (e que neste momento não estão em discussão).
• Superar o formalismo, a burocracia, a alienação das relações.
• Ajudar a fazer a leitura crítica dos meios de comunicação.
• Famílias ajudarem filhos a refletirem sobre sentido da existência.
• Buscar valorização efetiva da Educação e de seus profissionais.
• Comprometer-se com a construção de uma nova ética social.

2 - Resgates das Exigências
• Construção coletiva das normas da escola e da sala de aula.
• Resgate do autêntico diálogo, que não é nem o "sermãozinho" particular, nem o "passar a mão na cabeça" como se nada tivesse acontecido.
• Trabalhar com sanções por reciprocidade, superando a punição autoritária, bem como o clima de impunidade.
• Educadores (pais, professores etc): estabelecer e cumprir limites.
• Superar as normas equivocadas ou ultrapassadas.
• Desenvolver uma metodologia participativa em sala de aula.
• Entender o estudo como trabalho.
• Valorizar e incentivar as organizações estudantis.
• Compromisso do professor (dar o melhor de si, não faltar, etc.).
• Criar clima de respeito na escola.
• Conquistar e ocupar bem o espaço de trabalho coletivo constante na escola.
• Aluno assumir a responsabilidade coletiva pela aprendizagem.
• Aluno participar ativamente das aulas, expressar suas necessidades.
• Conquistar melhores condições de trabalho (salário digno, número de alunos adequado em sala de aula, diminuição da burocracia, material didático, instalações etc.).
• Família resolver os eventuais conflitos diretamente com a escola e não através do filho.
• Buscar nova política para os meios de comunicação social.
• Lutar para superação do clima de impunidade na sociedade (pg. 242-244).

Enfim, constata-se que com a execução destas propostas, a referida escola se inseriu no caminho das inovações, mediação e adequação das metodologias que oportunize minimizar os conflitos em sala de aula, principalmente, nas questões de indisciplina. Demonstra ainda, que nesta busca foi possível não só a mudança na postura do aluno, mas dos atores envolvidos na educação escolar, na dinâmica do ensinar e aprender e vice-versa, na relação professor/aluno, desta escola.


CONCLUSÃO
            Ao refletir e buscar alternativas para o enfrentamento de grande parte das variantes que acarretam a indisciplina, na sala de aula, aqui conceituada como: transgressão ao direito do outro, incompreensão as normas da escola e regras de convívio, falta de limites, agressividade.
            No entanto o desafio consiste em refletir esse processo, o que desencadeia o ato de in-disciplina em sala de aula, colocar em prática ações que resgate os sentidos e exigências da educação escolar. Que, exige mudanças nos procedimentos, não só detectar o problema, mas colocar em prática, alternativas de superação do conflito, ser responsável como educador.
            A postura do professor, sua autoridade, sem ser autoritário, principalmente, planejar propostas com objetivos claros e metodologias adequadas, são pontos determinantes no sentido de orientar os educandos a construir sentido na educação, iniciar a compreensão das regras sociais e limites em sala de aula. Embora a problemática não seja, exclusiva do professor, mas de responsabilidade de todos os atores envolvidos na educação escolar.
            Enfim, esta problemática é extremamente complexa, pois, muitos fatores desencadeiam a ação de indisciplina, por esta razão devem-se valorizar cada conquista, por menor que seja. As mudanças podem ocorrer gradativamente, com a colaboração de todos os atores envolvidos na educação escolar: professor, família, gestores, no desenvolvimento das ações, considerando as situações da realidade concreta. Sabendo-se que não se trata de conflito isolado, mas que aflige a maioria das instituições escolares brasileiras.



REFERÊNCIAS

1- ARROYO , Miguel González . Quando A Violência Infanto-Juvenil Indaga A Pedagogia. Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 – Especial, p. 787-807, out. 2007 805 – Disponível em http://www.cedes.unicamp.br/pesquisa.htm - acesso em - 17/06/2011.

2- BRASIL. Portaria Normativa Nº 27, de 21 de Junho de 2007. http://coordenacaoescolagestores.mec.gov.bracesso em - 10/06/2011.

3- GROPPA, Aquino. Disciplina X indisciplina: hipóteses dos educadores escolares. USP, 1998.

4- LIMA, Paulo Gomes & SANTOS, Sandra Mendes dos. O Coordenador Pedagógico Na Educação Básica: Desafios e Perspectivas. Educare et Educare - revista de educação Vol. 2 nº 4 jul./dez. 2007. p. 77-90. Disponível em: http://e-revista.unioeste.br/index.php/educereeteducare/article/view/1656 - acesso em - 19/06/2011.

5- SILVIA, Aída Maria Monteiro. A Violência na Escola: A Percepção dos Alunos e Professores. Criado em 10/10/2001. Disponível em: http://coordenacaoescolagestores.mec.gov.br/.../1/.../A-violencia-na-escola-a-percepcao-dos-alunos-e-professores.PDF  - acesso em 20/06/2011.

6- TIBA, Içami. Disciplina: limite na medida certa. 28ª Ed. São Paulo: Editora Gente, 1996.

7- THURLER, Monica Gather. A eficácia das escolas não se mede : ela se constrói, negocia-se, pratica-se e se vive. Universidades de Genebra e de Fribourg 1998. Disponível em: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/gather-thurler/Textes/Textes-1998/MGT-1998-08.html - acesso em 07/09/2011

8- VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 1995.

9- _____________________. Os Desafios da Indisciplina em Sala de Aula e na Escola. Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_28_p227-252_c.pdf - acesso em - 19/06/2011.

10- _______________________. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político pedagógico ao cotidiano da sala de aula. 5º ed. São Paulo: Libertad. 2004.



[1] Graduada em Pedagogia, pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR, no ano de 1999, se especializou em Psicopedagogia no ano de 2000, na mesma universidade e, na em Tecnologia em Educação pela Pontifícia Universidade Católica o Rio de Janeiro – PUC/Rio, em 2010. Atualmente exerce a função de Coordenação Pedagógica pela Secretaria Municipal de Educação do município de Pimenta Bueno-RO, na escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental, anos inicial.
[2] Este nome da escola é fictício para proteção da identidade da instituição.
[3] Nome fictício para proteção da identidade da instituição.
[4] Professor da faculdade de educação da USP.

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